Discorrerei sobre o discurso do “Outro” na literatura de língua inglesa pós-colonial caribenha enfocando o poema “Crusoe’s Journal”, da obra Collected Poems: 1948-1984 de Derek Walcott, que resume a temática básica de um dos mais importantes representantes dos escritores caribenhos. Seus poemas refletem um “eu” dividido entre duas culturas distintas, estabelecendo um fosso abismal que o mantém preso dentro da própria linguagem que o constitui. Ironicamente, com seu discurso marginal e questionador de sua condição periférica, ele passou a ocupar a posição de centro canônico ao ganhar o prêmio Nobel de literatura em 1992.
O tema de Crusoe's Journal (O diário de Crusoé) é a impossibilidade de resolução do mimetismo lingüístico, quando o sujeito se encontra preso na teia da língua que não é a sua, quando um retorno à origem é também impossível, já que não há nada a que retornar. Walcott apresenta o tema da reificação através do mimetismo. A imposição de uma cultura sobre uma outra transforma o ser colonizado em um mero reprodutor de um mundo que não é o seu, em objetos cuja “solidão é multiplicada pelo tempo”, os resíduos do agente histórico, as sobras, os restos da condição pós-colonial que deixa “fixado um grande golfo fixado” entre o ser e o Outro, como mostra a epígrafe do poema, uma citação bíblica do pai Abraão pelo personagem principal em Robinson Crusoé.
Golfo (Gulf) é uma palavra-chave recorrente nos poemas de Walcott. A citação na epígrafe “Between me and thee is a great gulf fixed” resume a sua condição de alteridade. O “golfo” é o espaço entre ele e o Outro que ele tenta superar através da imitação e do mimetismo, o fosso intransponível que constitui a sua alma. Além disso, há a questão da separação geográfica entre as ilhas caribenhas e o continente. Cada ilha repete a sua solidão, como descreve Benítez-Rojo[1] “multiplicando a [sua] solidão natural”, no dizer de Walcott. Cada ilha sonha em se alongar e se tornar parte do continente, o universo do Outro, de modo que ela possa alcançar um status universal, reconhecida como parte da cultura ocidental vigente e preponderante. Portanto, a geografia desempenha um papel importante na compreensão da situação caribenha. A ilha admira e respeita o continente, ela fita o Outro com olhos seduzidos de desejo, ansiando ser parte dele, superar o golfo, o abismo que separa uma parte da outra, através do alongamento e do contato, ligando o fosso com uma ponte e tornando-se um. A geografia externa de falta e incompletude é refletida no mapa interior do desejo, a história do sujeito espelhando a história de seu país, as ilhas externas refletindo a solidão interna do sujeito e vice-versa, na condição de naufrágio que ele herdou.
Na passagem de Robinson Crusoé que Walcott usa como epígrafe de seu poema, ele se identifica com Crusoé no seu estranhamento do mundo:
I looked now upon the world as a thing remote, which I had nothing to do with, no expectation from, and, indeed, no desires about. In a word, I had nothing indeed to do with it, nor was ever like to have; so I thought it looked as we may perhaps look upon it hereafter, viz, as a place I had lived in but was come out of it; and well might I say, as Father Abraham to Dives, "Between me and thee is a great gulf fixed." - Robinson Crusoe (WALCOTT, 1986, 92). [2]
Essa passagem remete ao sentimento descrito por Freud como das Unheimliche, traduzido para o português como “O Estranho”, o sentimento de estranhamento, afastamento e alienação presentes na palavra alemã Unheimliche (que contém seu oposto [heimliche] nela própria), aquele sentimento de ver algo que uma vez nos foi familiar como algo estranho, hostil, forasteiro, ou indiferente, onde antes existia uma ligação, uma proximidade.
Esse sentimento é aquele que Walcott compartilha com Crusoé, quando um mundo ao qual ele estava acostumado e familiarizado subitamente torna-se alienante, alheio, estranho, quando ele se encontra face a face com um estado de alteridade. Este é também o momento de descoberta e da criação poética, na qual o artista estranha a realidade e o ambiente à sua volta. Para Walcott, o momento criativo é um momento da descoberta de seu estado de assimilação e mimetismo, um momento em que ele tem que acertar as contas consigo próprio e com a realidade à sua volta. Somente ao atingir o estado de alteridade, ao tornar-se um escritor, ele é capaz de enfrentar sua própria condição de dependência de um mundo de simulacros. Este é também o momento do reconhecimento de sua insolvência, o impasse que ele está impossibilitado de resolver. Portanto, sua impossibilidade o leva a um estado nadificante de nulidade, insignificância, e total alheamento por se encontrar preso no abismo do golfo que o divide.
Após a epígrafe, o poema inicia, descrevendo o trajeto até uma casa de praia, um trajeto similar ao percorrido por Robinson Crusoé. A partir daí, o poema refere-se ao uso da razão inglesa que predomina no romance quando o personagem usa o intelecto para avaliar o que resgatar dos objetos encontrados nos destroços do navio. Walcott critica a reificação até mesmo das necessidades básicas e de estilo que ganham utilidade do mesmo modo que os utensílios de ferro que Crusoé recupera do navio. Após construir sua casa, Crusoé começa a escrever o seu diário, tentando um estilo que Walcott compara ao de cortar madeira com a enxó.
Once we have driven past Mundo Nuevo trace
safely to this beach house
perched between ocean and green, churning forest
the intellect appraises
objects surely, even the bare necessities
of style are turned to use,
like those plain iron tools he salvages
from shipwreck, hewing a prose
as odorous as raw wood to the adze; (WALCOTT, 1986, 92)[3]
E dessa lavra, nasce a primeira bíblia, o gênesis profano de uma raça que tem em Crusoé o seu Adão, que fala aquela prosa até então desconhecida pelos nativos. Robinson Crusoé é o representante de um império que introduziu uma cultura letrada em um mundo que não tinha nenhuma necessidade da alfabetização que ele representava. Crusoé personifica Cristovão Colombo em seu ato de colonialismo. O mundo letrado foi introduzido nas colônias européias através do cristianismo e da Bíblia, através da injeção do Logos em um universo que não necessitava de metáforas. Como escreve Walcott, sua terra era a metáfora concreta do paraíso antes da chegada dos colonizadores que transformaram os nativos em papagaios obedientes e repetidores, em bondosos Sexta-Feiras com paixão, em canibais de uma espécie diferente: aquela que come a carne de Cristo, que é separada dela mesma, aquela que perdeu a voz e agora imita e molda uma língua onde “nada existia”; os caribenhos tornaram-se uma espécie de “párias”, “naufrágos proscritos” que se movimentam “posando de naturalistas” e implorando o elogio do Outro, uma espécie amedrontada, coisificada pelo tempo e pela história; uma espécie cuja solidão se multiplica em busca de um sentido perdido, de um significado deixado para trás em algum lugar nas cavernas do passado, como cantam e contam os versos de Walcott:
(. . . ) out of such timbers
came our first book, our profane Genesis
whose Adam speaks that prose
which, blessing some sea-rock, startles itself
with poetry's surprise,
in a green world, one without metaphors;
like Cristofer he bears
in speech mnemonic as a missionary's
the Word to savages,
its shape an earthen, water bearing vessel's
whose sprinkling alters us
into good Fridays who recite His praise,
parroting our master's
style and voice, we make his language ours,
converted cannibals
we learn with him to eat the flesh of Christ (WALCOTT, 1986, 92-3).[4]
Crusoé, embora ilhado e longe da civilização, se apega aos princípios e visão de mundo do universo distante que ele representava, recorrendo à Bíblia como uma maneira de sobrevivência. Uma vez estabelecido e após haver transformado o canibal Sexta-Feira em seu escravo obediente, ele o ensina não somente a sua língua, mas também sua religião, agindo como um missionário em um mundo sem templos, pregando o Logos em um local que lembrava o próprio paraíso sem nenhuma necessidade da mediação do discurso escrito. Crusoé não quis aprender a língua ou a cultura de Sexta-Feira. É Sexta-Feira quem teve que aprender, ser ensinado, educado, e “civilizado”. Embora Walcott critique este processo “civilizatório”, como fruto desse processo, ele não tem escapatória, conforme já assinalei.
O poema lida com o tema da aquisição e advento da linguagem, a famosa questão das origens. Walcott está preso dentro da linguagem, e a língua que ele possui para falar sobre isto e estabelecer sua crítica é a língua do Outro que lhe foi imposta. Este fato demonstra a situação paradoxal na qual ele se encontra e reflete a problemática do seu impasse. Em que língua pedir ou demandar? Ele não possui nenhuma língua própria, uma vez que a língua dos habitantes autóctones, os povos nativos, desapareceu com a devastação de suas espécies. Mas mesmo quando ela existiu, era uma língua oral, sem nenhum registro escrito. Sexta-Feira possuía uma língua que Walcott não mais possui. Ele tornou-se um algo híbrido em busca de um significado que jamais se concretizará, a própria exemplificação da “falta” lacaniana. O seu significante não significa, mas é o único signo que ele possui para atingir expressão.
A recorrência de certas palavras através de seus poemas ajuda-nos a perceber em Walcott aquilo que em termos psicanalíticos poderia ser definido como “clivagem do ego”, que, para Freud, significa a coexistência no coração do ego de duas atitudes psíquicas em relação à realidade externa quando esta se coloca no caminho das exigências das pulsões. A primeira dessas atitudes considera a realidade, enquanto a segunda a desqualifica e a substitui por um produto do desejo.[5] As palavras que aparecem nos títulos de seus poemas reforçam a idéia de alienação, estranhamento, objetude, mimetismo, e rejeição. Elas reforçam o desejo de se libertar de um passado cujo fantasma o assombra, um desejo de começar de novo, construir uma nova vida não mais nas ruínas do exílio. Dividido entre dois mundos, ele deseja construir seu próprio paraíso no qual ele possa tornar-se a origem tornando-se Adão.
O espelho é também uma imagem recorrente em seus poemas, como podemos observar nos versos seguintes, onde tudo é multiplicado pelo tempo. O verbo “multiplicar” está também ligado à figura do espelho, já que um espelho multiplica imagens por reflexo. Também é notável a repetição da palavra “shape” (forma) neste poema.[6] As diversas definições dessa palavra podem ser aplicadas ao ser pós-colonial que Walcott representa, um ser fragmentariamente moldado que anseia por se tornar universalmente reconhecido como uma forma determinada no tempo: um ser cuja vida foi determinada e dirigida por sua existência na história; um ser que foi moldado de modo a se tornar apto, adaptável à uma condição histórica, assumindo a aparência do fantasma do Outro; um ser incompleto que deseja ser moldado em sua forma madura, definida, de modo a que ela possa direcionar o curso de sua própria vida e de suas ações, como podemos perceber nos seguintes versos:
All shapes, all objects multiplied from his,
our ocean's Proteus;
in childhood, his derelict's old age
was like a god's. (Now pass
in memory, in serene parenthesis,
the cliff-deep leeward coast
of my own island filing past the noise
of stuttering canvas,
some noon-struck village, Choiseul, Canaries,
crouched crocodile canoes,
a savage settlement from Henty's novels,
Marryat or R.L.S.,
with one boy signalling at the sea's edge,
though what he cried is lost.) (WALCOTT, 1986, 93). [7]
O pronome his [dele] nos versos precedentes se refere tanto a Cristo quanto a Crusoé, que incorpora a figura do Outro que o ser colonizado espelhava. No verso “our ocean’s Proteus” (“Proteus de nosso oceano”) há a presença da figura protéica mitológica que pode assumir qualquer forma, assim como os povos colonizados tinham que incorporar a forma do colonizador através da assimilação de todas as formas pertencentes ao Outro.
A memória da infância aparece como um “parêntese sereno”, como se a totalidade da história de sua infância pudesse ser resumida em algo que caberia em um parêntese, um aparte que não ocupa a posição central do discurso, e como tal, embora “sereno”, não é de importância principal. A ilha de Crusoé torna-se a sua própria, tanto a ilha real onde Walcott nasceu como aquela da sua fantasia e imaginação, sua própria ilha privada, espelhada em sua mente através dos livros infantis que ele lia quando criança. A infância está assim ligada a uma cultura de leitura cujo ambiente não é o seu, mas inglês, ou criado e descrito por olhos britânicos em romances cujos autores ele não consegue identificar com precisão, mas que não faz muita diferença, uma vez que tanto o cenário quanto o enredo são mediados por olhos imperiais. A visão de um garoto acenando na beira do mar é seguida pela lembrança da perda no verso “though what he cried is lost.” [“embora o que ele gritava se perdeu”]. Esta perda pode ser interpretada como a perda da lembrança daquilo que o garoto (personagem do livro) gritou, ou a perda de sua própria voz como sujeito, se interpretarmos o garoto como sendo o próprio Walcott, perdido no tempo. Além disso, essa perda demonstra a sua inabilidade de reproduzir a voz de suas lembranças, de sua memória. Seu próprio discurso tornou-se silencioso, esquecido, apagado através do tempo, já que ele não possui uma voz autêntica. Sua voz é um arremedo expresso em uma “lona balbuciante” (“stuttering canvas”), que tanto pode se referir à lona de um circo, à tela de pinturas, outra arte adotada por Walcott, assim como à vela de barco, das lembranças infantis do romance “A Ilha do Tesouro”, do escritor escocês Robert Louis Stevenson, citado no poema na alusão ao personagem Ben Gunn.
O tempo é também um espelho que multiplica a sua solidão, a única coisa natural que ele possui que possa ser considerado verdadeiramente sua [“So time, that makes us objects, multiplies our natural loneliness”]. Preso ao tempo (à condição histórica) e à linguagem, o sujeito torna-se um objeto. Mesmo assim, o objeto no qual o sujeito se transforma é moldado em “algo sem uso”, um algo-sujeito cujo ser está “separado de si mesmo”, que vive num limbo, “em algum outro lugar”, em um estado de nadificação, desejoso da liberdade metaforizada das gaivotas que anuviam as ilhotas, cuja linguagem em estado bruto é tão mimética quanto a sua, pois elas emitem “gritos miméticos primevos” [“raw, mimetic cries”]. Esses sons deveriam ser o mais natural possível, pois gritos são a expressão mais individualizada e peculiar de um ser, que antecede à própria origem das línguas, mas mesmo esses gritos são miméticos. O sujeito pós colonial é uma imitação de um ser que aspira à vitória numa batalha perdida, e que mesmo incompleto, ele “nunca se rende totalmente”; mesmo assim, ele “precisa do elogio de um outro”, o reconhecimento de seu estado de objetude; ele é um ser fragmentado que tem que aprender de novo “a paz auto-criadora das ilhas”, aprender como se criar do nada e de sua solidão; um ser objetificado que aprende a moldar, a partir do diário de Crusoé, “a língua de uma raça onde nada havia”, uma língua que tem de encontrar o seu valor na sua expressão escrita, e como ela não existe, já que a língua original da ilha agora está extinta, a língua teve de ser tomada de empréstimo, substituída por uma outra que não é a sua.
So time, that makes us objects, multiplies
our natural loneliness.
For the hermetic skill, that from earth's clays
shapes something without use,
and, separate from itself, lives somewhere else,
sharing with every beach
a longing for those gulls that cloud the cays
with raw, mimetic cries,
never surrenders wholly, for it knows
it needs another's praise
like hoar, half-cracked Ben Gunn, until it cries
at last, "O happy desert!"
and learns again the self-creating peace
of islands. So from this house
that faces nothing but the sea, his journals assume a household use;
we learn to shape from them, where nothing was
the language of a race (WALCOTT, 1986, 93-94)[8]
O intelecto exige uma máscara, já que o ser colonial não consegue pensar por si próprio. Sua máscara não é somente o discurso do Outro, mas também a sua aparência física, o rosto barbado de Crusoé, o espelho que fornece aos seres coloniais o desejo de se auto-dramatizarem à custa da natureza. O “eu” não é o “eu” , mas a dramatização de uma máscara, um totem metaforizado, uma pantomima em detrimento da natureza. O ser pós-colonial não possui nem mesmo um desejo seu, pois desejo é algo subjetivo, e eles tornaram-se objetificados. O desejo é fornecido para eles. Eles não são: eles posam. Todos são proscritos, náufragos abjetos, párias que posam de naturalistas e anseiam por fantasias de inocência. Mesmo aquilo pelo que anseiam é uma fantasia, nada concreto, mas uma representação. Sua fé natural foi roubada no desejo do Logos incutido em seus desejos quando suas vozes se apavoraram na enunciação do simulacro mítico cristão, quando as suas solidões, a única coisa natural que lhes foi deixada, tornam-se uma heresia que deve ser escondida, negada, uma vez que as criaturas pequenas não podem compartilhar a solidão de Deus.
and since the intellect demands its mask
that sun-cracked, bearded face
provides us with the wish to dramatize
ourselves at nature's cost,
to attempt a beard, to squint through the sea-haze,
posing as naturalists,
drunks, castaways, beachcombers, all of us
yearn for those fantasies
of innocence, for our faith's arrested phase
when the clear voice
startled itself saying "water, heaven, Christ,"
hoarding such heresies as
God's loneliness moves in His smallest creatures (WALCOTT, 1986, 94). [9]
Destituído de uma nação própria, o ser pós-colonial busca uma cultura na qual gostaria de se espelhar. Como signo, o espelho se torna um elemento importante, pois reflete a fragmentação do sujeito e a condição mimética do ser pós-colonial. Se nos valermos da psicanálise para interpretar a produção literária do Caribe da mesma forma que se interpretam as narrativas oníricas, poderemos então compreender a razão da recorrência das imagens do espelho e da fragmentação dos caribenhos pós-coloniais, da sua ambigüidade, de sua divisão física e mental, de sua duplicação e seu por vezes obsessivo desejo de tornar-se o desejo do Outro, desejo de apagar todo e qualquer traço de sua diferença a fim de serem aceitos no mundo do colonizador, uma vez que esse outro mundo rejeita a diferença. Como uma criança descobrindo o Outro através da sua própria imagem projetando-se do espelho, Walcott descobre a armadura da identidade alienante que ele havia assumido. E esta imagem é ele próprio.[10] Quando a projeção no e do Outro revela a opacidade da imagem refletida, desvelando o vazio e a falta de significado do mimetismo, outro desejo assoma, um desejo de quebrar o espelho, de destruir a imagem mimética e de recuperar a própria identidade.[11] Esta destruição é processada através do ato da criação artística, através da escrita, da apropriação da língua do Outro. Todavia, o espelho quebrado revela que o ato de imitação já faz parte do ser e que toda tentativa de se livrar dos estilhaços é vã, já que ele é composto desses fragmentos do Outro. Livrar-se deles equivale a livrar-se de seu próprio ser. O sujeito caribenho se vê, por conseguinte, diante de um impasse ao qual tem de resignar-se, na tentativa de encontrar seu lugar no mundo, no tempo e espaço do Outro, um tempo e espaço que se intitula pós-moderno.
Embora a filosofia pós-moderna tenha eleito a "diferença" como um de seus principais cânones, a realidade cotidiana contradiz essa visão democrática, pois o mundo continua dividido em estruturas sociais e raciais. A aceitação da diferença é utilizada apenas para separar as pessoas, classificá-las e rotulá-las conforme diferentes categorias, em que todos são iguais, mas alguns são "mais iguais do que os outros", como escreveu George Orwell[12]. Dentro de uma perspectiva econômica, a parceria dos iguais das nações desenvolvidas sempre rejeitará o espaço periférico, absorvendo a diferença apenas como um modo de consumo sem permitir que lhe seja fornecida a sua autonomia de produção. A literatura caribenha vai além da investigação da exploração humana para nos mostrar o impasse de uma existência na não-existência, a experiência do tempo e espaço da negação. Como uma metáfora, o sujeito caribenho vivencia um estado de nadificação em uma espécie de limbo, vivendo e não vivendo. Ele é um ser cuja existência se vai esvaindo num espelho na irrealidade da imaginação, um ser criado que não pode viver ou morrer, a fumaça que anuvia o sonho de um Outro.
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[1] Cf. The Repeating Island
[2] Tradução: “Olhava agora para o mundo como uma coisa remota, com a qual eu não nada tinha que ver, dela nada esperava, nem mesmo desejava. Em uma palavra, eu não tinha mesmo nada a ver com o mundo, nem tampouco algum dia teria; por isso achei que parecia que talvez pudéssemos vê-lo dali por diante como um lugar no qual eu vivera mas do qual havia saído; e, bem poderia dizer, como o pai Abraão para Dives, ‘Entre mim e ti está fixado um grande golfo’ – Robinson Crusoé” (WALCOTT, 1986, 92)
[3] Tradução: “Tendo deixado Mundo Nuevo para trás siga / em segurança até esta casa de praia / empoleirada entre oceano e verde floresta agitada / o intelecto avalia / objetos com precisão, mesmo as necessidades básicas / do estilo ganham uso, / como esses simples utensílios de ferro que ele resgata / do naufrágio, lavrando uma prosa / tão perfumada como madeira nova para a enxó;”
[4] Tradução: “de tais madeiras / surgiu o nosso primeiro livro, nosso Gênesis profano, / cujo Adão fala aquela prosa / que, abençoando alguma rocha-marinha, choca-se / com a surpresa da poesia, / em um mundo verde, sem metáforas, / como Cristóvão ele carrega / na fala mnemônica de missionário / a Palavra para selvagens, / sua forma, de um vaso de barro para carregar água / cuja aspersão nos transforma / em bondosos Sextas-Feiras que recitam o Seu louvor, / papagueando estilo e voz do nosso mestre, / fazemos nossa a sua língua, / canibais convertidos, / aprendemos com ele a comer o corpo de Cristo” (WALCOTT, 1998, 92-3).
[5] Cf. J. LAPLANCHE &, J-B PONTALIS. The language of psycho-analysis. Trad. Donald Nicholson-Smith. New York & London:W.W. Norton, 1973. 427-429.
[6] “Shape: n. 1. The outline or characteristic surface configuration of a thing; a contour; form. 2. The contour of a person’s body; figure. 3. Developed, definite, or proper form. 4. Any form or condition in which something may exist or appear; embodiment. 5. Assumed or false appearance; guise. 6. an imaginary or ghostly form; phantom. 7. Something used to give or determine form, as a mold or pattern.” The Heritage Illustrated Dictionary of the English Language. op. cit.
[7] Tradução: “Todas as formas, todos os objetos multiplicados dos dele, / nosso Proteu do oceano; / na infância, a velhice do seu derrelito / era como a de um deus. (Agora passo / na memória, em parêntese sereno, / a costa a sotavento profunda como um penhasco / de minha própria ilha desfilando pelo ruído / da lona balbuciante, / alguma vila fechada ao meio-dia, / Choiseul, Canárias, / canoas como crocodilhos agachados, / um povoado selvagem dos romances de Henty, / Marryat ou R.L.S., / com um garoto acenando na beira do mar, / embora o que ele gritava se perdeu.)” (WALCOTT, 1986, 93).
[8] Tradução: “Assim o tempo, que nos faz objetos, multiplica / nossa solidão natural. / Pois a habilidade hermética, que dos barros da terra / molda algo sem uso, / e separada de si mesma, vive em um outro lugar, / compartilhando com cada praia / um desejo daquelas gaivotas que anuviam as ilhotas / com miméticos gritos primevos, / nunca se rende completamente, pois ela sabe / que precisa do elogio de um outro / como o grisalho e amalucado Ben Gunn, até gritar / por fim: “Ó deserto feliz!” / e aprender de novo a paz auto-criadora / das ilhas. Assim, desta casa / de onde nada se vê além do mar, / seu diário assume um uso cotidiano; / aprendemos a moldar a partir dele, onde nada havia, / a língua de uma raça...” (WALCOTT, 1986, 93-94)
[9] Tradução: “e já que o intelecto exige sua máscara /aquele rosto barbado curtido pelo sol / nos fornece o desejo de nos dramatizar-nos / à custa da natureza, / ensaiando uma barba, forçando a vista no mormaço, / posando de naturalistas, / bêbados, párias, vagabundos da praia, todos nós / ansiamos por essas fantasias / de inocência, pela fase roubada de nossa fé, / quando a voz clara / se surpreendeu ao dizer “água, paraíso, Cristo”, / acumulando heresias como / a solidão de Deus pulsa em Suas criaturas mais ínfimas” (WALCOTT, 1986, 94).
[10] O conto La Horla de Guy de Maupassant lida com o mesmo tema da descoberta que o Outro é o próprio ser.
[11] Como na cena da quebra do espelho em The Mimic Men de Naipaul (74-5).
[12] George ORWELL (Eric Blair). Animal Farm. London: Penguin, 1987. 114.